10 ANOS DE CINEMA E AUDIOVISUAL DA UNILA
muitas imagens e imaginários a serem reivindicados

É na América Latina que assentamos nossos sonhos e propósitos de refletir e realizar imagens e imaginários. Um continente que é atravessado pela luta e resistência dos povos indígenas frente à espoliação e violência colonial, que carrega as marcas de uma natureza exuberante, saqueada pela acumulação primitiva e por constante avanço dos interesses do agronegócio, por exemplo. Um continente marcado pela escravidão dos negros, a miscigenação, as marcas do subdesenvolvimento, a criação de diversas identidades nacionais e a formação dos Estados Nacionais submissos à ingerência do capitalismo e do imperialismo. 

 

É diante das contradições desta realidade, mais precisamente na complexidade de uma região de fronteira trinacional, nas cidades de Foz do Iguaçu (BR), Ciudad del Leste (PY) e Puerto Iguazu (AR), que nasceu, há dez anos, o Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). Um curso que tem como missão reivindicar e produzir novas imagens sobre os territórios, suas gentes, sua diversidade cultural e as contradições que conformam nossa formação social, mas também o desafio de refletir sobre a história da produção das imagens, a construção de estereótipos ou de imagens que reverberam nossa rica diversidade e as disparidades que marcam a produção da cinematografia desde os mais remotos rincões. 

 

O Curso de Cinema e Audiovisual nasceu para ser parte de um projeto de integração e solidariedade internacionalista que constitui a UNILA e sua missão institucional de integrar por meio da produção solidária de conhecimento. No caminho de implementação do curso vencemos vários desafios, entre os quais a conformação de um corpo docente que pudesse atender as demandas de ensino, pesquisa e extensão; a formação de laboratórios para nossas práticas de criação e reflexão cinematográficas; e o desafio de adquirirmos equipamentos para viabilizar a materialidade da produção das imagens. Se bem, os/as estudantes tinham e têm muitas ‘ideias na cabeça’, era e segue sendo necessário também ter as câmeras em mãos. Câmeras, lentes, tripés, luzes, computadores, claquetes, gravadores, entre tantos outros aparatos técnicos e tecnológicos que transformam ideias em histórias, movendo assim diferentes sensibilidades.

 

Recém dez anos se passaram, mas o curso já contribuiu imensamente com a cidade de Foz do Iguaçu e com a região, por meio de seus projetos de extensão e de pesquisa, participando e criando Festivais de Cinema, mostras de filmes e debates com a sociedade. Por meio da realização cinematográfica, de diferentes formas, envolveu e envolve a comunidade. Além disso, vem contribuindo com a produção cinematográfica do continente, a partir da intervenção dos profissionais formados na universidade e que tem a possibilidade de produzir, refletir e com isso intervir em suas distintas realidades nos vários países do nosso continente e para além deles. 

 

Temos muitos caminhos a desbravar ainda, temos muitas reflexões a serem fomentadas pelas nossas pesquisas e pelas práticas do ensino e da extensão. Temos muitas histórias ainda a serem contadas nos roteiros, em formas de expressão da direção de fotografia, da captação sonora e da produção musical, do ritmo da montagem, dos imensos desafios das formas de produção. Mas estes dez anos do Curso de Cinema e Audiovisual já nos revelaram a riqueza que é uma sala de aula da Unila: onde nos encontramos com diferentes bagagens culturais, linguísticas, histórias de jovens que chegam carregados de sonhos e que saem da universidade com ferramentas teórico-práticas para efetivar uma práxis cinematográfica que possa questionar, transformar e tocar as pessoas. 

Fran Rebelatto

Realizadora audiovisual e fotógrafa. Professora de Cinema e Audiovisual da Unila. Doutora em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestre em Ciências Sociais e graduada em Jornalismo, ambas pela UFSM.

AS MOSTRAS DA II SECCA

O araçari-letrado, apesar de sua pequena estatura, é notoriamente belo por seu bico riscado. O tico-tico, além de seu doce canto, é caracterizado por cuidar não somente de seus próprios filhotes, mas também dos filhotes de Chopim, cujos ovos são botados em seu ninho. O iriburubixá, ou urubu-rei, é descrito por muitos como uma espécie fraca e desprezível, mas suas qualidades, muitas vezes ignoradas, são relevantes e admiráveis, já que são fundamentais para a limpeza do meio ambiente e seu vôo pode alcançar incríveis quatrocentos metros de altitude. Essas aves nomeiam, respectivamente, as mostras de discentes, pois sua pequenez não anula sua beleza, de docentes, cujo tempo é disponibilizado em prol do desenvolvimento dos estudantes, e de primeiros filmes de diretores, comumente mal julgados, mas que possuem seu valor.

Beatriz Xavier, a responsável pela sugestão dos títulos, é graduanda de cinema e audiovisual da UNILA e sua ideia foi eleita através de um concurso, aberto para todo o corpo docente e discente, que por meio de uma decisão coletiva deu nome à nossa mostra.

O conjunto de obras aqui presente foi organizado através de um processo de inscrições aberto para acadêmicos de cinema de toda a América Latina. As quase 60 obras recebidas passaram por um processo de seleção realizado por um grupo de discentes voluntários, em conjunto com a docente Virginia Flores. As 23 produções selecionadas foram divididas em suas respectivas categorias, e abrangem uma diversa gama de assuntos, culturas e comunidades, de Foz do Iguaçu à Cidade do México, todas unidas pelo elo da latinidade e da formação acadêmica.

Assim, a mostra representa parte essencial da comemoração dos 10 anos do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal da Integração Latinoamericana, tendo como objetivo promover a visibilidade dos diversos cinemas do continente e provocar reflexões que cooperem para a construção de um audiovisual não hegemônico, contemplado pela diversidade.

Cecília Pereira e Rafaela Necci

Estudantes do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) e representantes do Centro Acadêmico de Cinema e Audiovisual Gomes e Giardina (CACINEG) na comissão organizadora do evento.